
Imagine alguém chegando aos cinquenta anos e percebendo que passou boa parte da vida escolhendo o que parecia certo.
A profissão certa.
O casamento certo.
A maneira certa de cuidar dos filhos.
A maneira certa de se comportar.
A maneira certa de não decepcionar ninguém.
Até que, em algum momento, alguém pergunta:
“Mas o que você gostaria de fazer se ninguém esperasse nada de você?”
E essa pessoa fica em silêncio.
Não porque não tenha desejos.
Talvez porque tenha passado tanto tempo aprendendo a responder corretamente às expectativas dos outros que já não saiba muito bem como responder à própria vontade.
Essa situação não é tão estranha quanto parece.
Há pessoas que aprenderam muito cedo a ser responsáveis. Outras aprenderam a ser fortes. Algumas descobriram que precisavam agradar. Outras perceberam que era melhor não incomodar, não contrariar, não decepcionar.
O problema é que aquilo que começou como uma maneira de conviver pode, com o tempo, transformar-se em uma maneira de existir.
E então surge uma pergunta difícil:
Eu escolhi isso ou aprendi que deveria escolher?

Quando o elogio vira um lugar
Uma criança ouve:
“Você é tão responsável.”
Pode ser apenas um elogio.
Mas, quando isso se repete, aquela característica pode começar a ganhar outro peso.
Ela passa a ser “a responsável”.
E talvez descubra, sem que ninguém precise explicar, que não pode falhar.
O mesmo acontece com quem é chamado de forte.
Ou de inteligente.
Ou de bonzinho.
Ou de maduro.
Ou de quem “sempre resolve tudo”.
Aos poucos, algumas características deixam de ser apenas características.
Transformam-se em lugares.
E sair desse lugar pode parecer uma espécie de traição.
A pessoa responsável não pode precisar de ajuda.
O forte não pode desabar.
O bom filho não pode decepcionar os pais.
O profissional competente não pode admitir que não sabe.
Aquele que sempre cuida dos outros talvez nem saiba mais como pedir para ser cuidado.
É curioso como algumas prisões são construídas com aquilo que um dia recebemos como elogio.

O problema não é o outro
Seria fácil transformar tudo isso em uma defesa da independência:
“Não ligue para o que os outros pensam.”
“Viva a sua verdade.”
“Seja você mesmo.”
Mas talvez isso seja simples demais.
Nós precisamos dos outros.
Ninguém constrói sua identidade completamente sozinho. Somos nomeados, reconhecidos, educados, contrariados, amados, frustrados e comparados desde muito cedo.
A família participa.
A cultura participa.
Os grupos aos quais pertencemos participam.
As relações participam.
Até aquilo que aprendemos a admirar ou rejeitar pode ter uma história anterior a nós.
A psicologia do desenvolvimento e os estudos sobre identidade também mostram que a construção do self acontece em relação com contextos sociais e culturais, e não fora deles.
Portanto, o problema não é existir diante do olhar do outro.
O problema começa quando já não conseguimos distinguir aquilo que o outro espera de nós daquilo que nós mesmos desejamos.
E essa distinção pode ser muito difícil.
Porque algumas expectativas deixam de parecer expectativas.
Passam a parecer parte de quem somos.

Quando a expectativa entra para dentro
Talvez uma das coisas mais difíceis da vida psíquica seja perceber que nem tudo aquilo que sentimos como obrigação chegou até nós na forma de uma ordem.
Às vezes ninguém disse:
“Você precisa ser assim.”
Aprendemos.
Pelos gestos.
Pelos silêncios.
Pela aprovação.
Pela desaprovação.
Pelo que era celebrado.
Pelo que provocava vergonha.
Pelo que aproximava.
Pelo que afastava.
Uma criança pode descobrir, por exemplo, que quando não dá trabalho recebe aprovação. Pode aprender que quando tem boas notas deixa os pais felizes. Pode perceber que demonstrar fragilidade preocupa os outros.
Não precisa haver uma frase explícita.
A experiência ensina.
É por isso que algumas pessoas passam anos dizendo:
“Eu sou assim.”
Até que, em algum momento de escuta, aparece uma pergunta diferente:
“Quando foi que eu aprendi que precisava ser assim?”
Essa pergunta muda alguma coisa.
Porque uma característica pode ser nossa.
Mas também pode carregar uma história.
Freud dedicou parte importante de sua investigação justamente a compreender como as exigências, proibições e valores das relações podem ganhar lugar na vida psíquica. O conceito de supereu, por exemplo, procura dar conta dessa dimensão das exigências que passam a operar no próprio sujeito.
Não significa que exista simplesmente uma voz externa falando dentro da nossa cabeça.
Significa que aquilo que recebemos das relações pode ser transformado em exigência interna.
E, depois de algum tempo, podemos até esquecer que um dia aprendemos aquilo.

Talvez o medo não seja fracassar
Há uma diferença entre ter medo de fracassar e ter medo de decepcionar.
No primeiro caso, existe uma ameaça à imagem que fazemos de nós mesmos.
No segundo, existe também a ameaça de perder alguma coisa no vínculo com o outro.
É por isso que determinadas escolhas parecem tão difíceis.
Não se trata apenas de perguntar:
“Eu quero isso?”
Às vezes a pergunta escondida é:
“O que vai acontecer com a relação se eu não quiser?”
E então aparecem outras perguntas.
E se eu mudar de profissão?
E se eu disser não?
E se eu não quiser continuar?
E se eu escolher uma vida diferente daquela que imaginaram para mim?
E se meu pai se decepcionar?
E se minha mãe não entender?
E se meu parceiro não aceitar?
E se meus amigos não reconhecerem mais a pessoa que eu me tornei?
A questão deixa de ser apenas desejo.
Passa a ser pertencimento.
Talvez seja por isso que algumas pessoas permaneçam durante anos em lugares que já não desejam ocupar.
Não necessariamente porque não sabem que poderiam sair.
Mas porque imaginam o preço afetivo da saída.

Pertencer não é desaparecer
Existe uma diferença entre ouvir alguém e obedecer.
Entre considerar uma opinião e entregar a ela o comando.
Entre pertencer e desaparecer dentro do grupo.
Entre amar alguém e viver segundo aquilo que essa pessoa espera de nós.
Essas diferenças parecem óbvias quando colocadas no papel.
Na vida, nem sempre são.
Talvez porque autonomia não seja a ausência do outro.
Autonomia é poder participar das próprias escolhas.
Isso significa que posso escutar meu pai sem transformar a opinião dele em destino.
Posso amar minha mãe sem precisar realizar todas as expectativas dela.
Posso considerar a opinião de quem amo sem entregar a essa pessoa a autoria da minha vida.
Posso até decepcionar alguém sem, por isso, estar fazendo algo errado.
Essa última talvez seja uma das aprendizagens mais difíceis.
Porque há pessoas que não têm exatamente medo de fracassar.
Têm medo de decepcionar.
E quem passa a vida tentando não decepcionar ninguém pode acabar vivendo uma vida que não sabe se escolheu.

O desejo também pode ficar confuso
Existe ainda outra dificuldade.
Nem sempre sabemos o que queremos.
Isso pode parecer estranho em uma época que fala tanto sobre autenticidade.
Somos estimulados o tempo inteiro a descobrir nosso propósito, encontrar nossa paixão, realizar nosso potencial, construir nossa melhor versão.
Mas e quando alguém pergunta simplesmente:
“O que você quer?”
E não sabemos responder?
Talvez não seja falta de desejo.
Talvez seja falta de escuta.
Quem passou muito tempo respondendo ao que deveria fazer pode ter desenvolvido uma habilidade extraordinária para identificar expectativas e uma habilidade muito menor para reconhecer desejos.
Sabe o que precisa.
Sabe o que esperam.
Sabe o que seria conveniente.
Sabe o que evitaria conflito.
Mas não sabe, ainda, o que gostaria.
É uma diferença enorme.
A teoria da autodeterminação, desenvolvida por Richard Ryan e Edward Deci, também distingue formas de motivação associadas à autonomia daquelas marcadas por pressões externas. Essa perspectiva ajuda a compreender por que fazer alguma coisa por escolha não é psicologicamente igual a fazê-la apenas porque sentimos que precisamos corresponder.
Mas autonomia não significa viver sem ninguém.
E também não significa fazer tudo o que queremos.
Significa poder participar daquilo que fazemos.
Poder reconhecer uma escolha como nossa, mesmo sabendo que ela foi construída em meio a muitas influências.

Talvez não exista um “eu” esperando ser encontrado
Aqui a questão fica ainda mais complicada.
Gostamos da ideia de que existe, em algum lugar dentro de nós, um “eu verdadeiro”.
Como se nossa identidade fosse uma espécie de objeto escondido que precisamos encontrar.
Bastaria retirar as expectativas.
Abandonar as máscaras.
Ignorar o julgamento.
E finalmente descobriríamos quem somos.
Mas talvez não seja assim.
Quem somos também foi construído nas relações.
Recebemos coisas.
Repetimos coisas.
Recusamos coisas.
Transformamos coisas.
Criamos outras.
Algumas escolhas nasceram de nós.
Outras nasceram do que aprendemos.
Muitas provavelmente nasceram das duas coisas ao mesmo tempo.
É por isso que talvez a pergunta mais interessante não seja:
“Quem sou eu sem a influência de ninguém?”
Talvez essa pessoa nunca tenha existido.
Talvez a pergunta seja:
“O que, entre tudo aquilo que recebi, repeti e aprendi, consigo reconhecer como meu?”
Essa pergunta não promete uma resposta rápida.
Ainda bem.
Porque talvez autoconhecimento tenha menos a ver com encontrar uma identidade pronta e mais com investigar a história das escolhas que nos trouxeram até aqui.

O que fazemos com aquilo que herdamos?
Reconhecer a influência dos outros não significa culpá-los.
Também não significa transformar nossa história em uma lista de responsáveis pelo que somos.
Nossos pais receberam coisas antes de nós.
Nossa cultura nos oferece valores e limites.
Nossos relacionamentos nos transformam.
Nós também transformamos aquilo que recebemos.
Há coisas que herdamos e preservamos.
Há coisas que herdamos e recusamos.
Há coisas que herdamos e só muito mais tarde conseguimos compreender.
A identidade não é uma sentença.
Mas também não é uma página em branco.
Talvez sejamos, em parte, aquilo que fizeram conosco.
E, em parte, aquilo que conseguimos fazer com aquilo que fizeram conosco.
É nessa passagem que existe alguma liberdade.
Não uma liberdade absoluta, como se pudéssemos começar do zero.
Uma liberdade mais difícil.
A liberdade de olhar para a própria história e perguntar:
“Isso ainda precisa continuar sendo meu?”

Talvez amadurecer tenha alguma coisa a ver com isso
Não com deixar de ouvir os outros.
Não com romper com a família.
Não com abandonar tudo o que esperam de nós.
E muito menos com repetir que devemos simplesmente “ser nós mesmos”.
Talvez amadurecer tenha alguma coisa a ver com aprender a reconhecer as vozes que participam de nossas escolhas.
Algumas continuarão fazendo sentido.
Outras precisarão ser questionadas.
Algumas permanecerão porque escolhemos mantê-las.
Outras talvez permaneçam apenas porque temos medo de contrariá-las.
E algumas talvez já tenham falado tanto dentro de nós que nem conseguimos mais lembrar quando começaram.
Talvez seja aí que a identidade deixe de ser apenas uma resposta e volte a ser uma pergunta.
Porque podemos passar muitos anos dizendo:
“Eu sou assim.”
Até o dia em que conseguimos perguntar:
“Por quê?”
E talvez essa pergunta seja o começo de alguma liberdade.
Não a liberdade de deixar de ouvir o outro.
Mas a liberdade de ouvi-lo sem deixar de escutar a nós mesmos.
Porque nem tudo aquilo que recebemos precisa ser rejeitado.
Mas também nem tudo aquilo que recebemos precisa continuar decidindo por nós.
Quando você escolhe, quem está escolhendo dentro de você?

Gilson Souza é psicanalista, professor e filósofo. Escreve sobre psicanálise, filosofia, comportamento humano, identidade, relações e existência, buscando compreender aquilo que nos atravessa para além das respostas prontas.
